quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Moda Lisboa | Please turn off your cell phone before the show starts



Este ano, o Moda Lisboa desiludiu-me. Bastante. Pensava eu que o pior desta edição Legacy se resumia à falta do meu beloved Luís Buchinho no alinhamento dos desfiles. Pior do que isso: houve também uma grande falta de noção. Falta de noção das guidelines do evento, da sua seriedade, do seu papel enquanto representante principal (e - quase - único) da Moda portuguesa.
Quantas pessoas, de entre a vasta lista de convidados, se preparou para o evento? Não, não estou a falar na escolha do outfit... Estou mesmo a referir-me a preparação psicológica, a um momento de silêncio e shut down da nossa correria citadina para pensar no que realmente lá iríamos fazer. Eu fi-lo, aliás faço-o sempre. Para mim, a Moda ultrapassa a sua significação clássica: é muito mais do que a tendência de consumo do momento, é uma forma de expressão, de arte. A Moda não surgiu apenas da necessidade de nos vestirmos, surgiu também da necessidade de comunicarmos. Antes de existir um coordenado, houve um croqui, uma pintura. Quando esta passa a três dimensões, em que se distingue de uma escultura? No momento do desfile, peças de arte palmilham o espaço diante nós e fundem-se com ritmos musicais marcados, culminando numa apoteose de performance quase teatral.
Assistir a 3 dias de desfiles de criadores nacionais não é uma futilidade, é presenciar um espectáculo que estimula o nosso sentido estético. Mas, depois do que vi na última edição deste Moda Lisboa, percebo de onde vem esse estigma. Num país pequeno e corrompido, com uma capacidade micelar de formar lobbies, não me choca (mas desagrada-me profundamente) que se encorajem determinados grupos sociais a participar neste tipo de eventos, quando os seus membros não compreendem o conceito original.
Ora, já o nosso estimadíssimo Yves Saint Laurent dizia "We must never confuse elegance with snobbery.", porém é exactamente esse o paradigma a que assistimos no Moda Lisboa: a confusão entre o que é ser elegante e ser snob. Passo a explicar o perfil do snob-MLx: é considerado uma personalidade pública, senta-se na primeira fila ao lado do papelinho que indica press, passa o desfile inteiro a mexericar no telemóvel, tirar selfies e cochichar histericamente com a pessoa igualmente pseudo-famosa ao seu lado. E sim, isto choca-me. Choca-me, essencialmente, porque o meu primeiro sentimento, ao sentar-me nas bancadas do Pátio da Galé é um sentimento de auto-realização, de sonho atingido, de felicidade inexplicável. Ou melhor, explicável pelo o meu incomensurável amor ao mundo da Moda e a tudo aquilo que esta atinge na sua complexidade artística e estética. Choca-me porque sei que existem mais pessoas, perdidas por tais bancadas, que partilham este sentimento. E todo o comportamento do snob-MLx é uma gigantesca falta de respeito: para com o estilista, as pessoas como eu, o conceito de moda.
Este ano, pela primeira vez em 4 edições, não me deixaram sentar na segunda fila. "Pedimos desculpa, mas está reservada.". Pedimos desculpa, mas está reservada aos snobs-MLx. Para terem um melhor ângulo de selfie.

Este ano não há registo fotográfico das minhas colecções favoritas.
Estou de luto pela pequenez de espírito que teima em reinar neste país.

Love you all 
Sara

6 comentários:

  1. é uma realidade triste, que se dê mais valor ao culto da 'selfie', da pseudo-celebridade que vai a eventos para ser vista, mas é coisa que acredito que vá passar, tudo o que é demais enjoa.

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  2. Não poderia estar mais de acordo contigo baby! Eu fiquei extremamente desiludida idem, e o moda Lisboa ainda ouvirá de mim por e-mail!

    Um beijinho
    www.diaryofffashion.blogspot.pt
    #S

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  3. Adorei o teu blog, segui, espero que me sigas de volta! beijinhos :)
    www.walldrawingss.blogspot.pt

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  4. É a primeira crítica negativa que ouço mas não posso concordar mais contigo. irrita-me a mente pequena da maior parte do nosso país. mas afinal quem são estes famosos?? Seres que sobrevivem e fazem tudo para serem falados e depois não dão o devido valor!
    Eu adorava ter ido e não pude :(
    já agora sabes como se arranja bilhete? Adorava ir para a próxima edição mas não sei como arranjar o bilhete.
    Beijinhos

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  5. Infelizmente o que não falta nesse pais são pessoas snobs em locais onde entram por serem quem são, ignorando o propósito ou finalidade de irem. Fica bonito dizer "fui a moda Lisboa", quando nem de uma peça se recordam. A vida é injusta, mas a meu ver equilibrada, há de haver o dia em que te sentes na primeira fila, como uma verdadeira amante de moda, merece.

    Beijinhos, Dulcineia Dias, Savage Blogger
    http://www.dulcineiadias.com/

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  6. Adorei este post! Tens toda a razão!

    Estou a seguir também :)

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